Aos 70 anos, é um defensor exacerbado dos quadrinhos nacionais. Não gosta do Batman, nem do Super-Homem. Acha que são coisas dos gringos. Conheça um pouco mais sobre o mestre Flavio Barbosa Mavignier Colin, ou simplesmente, Flavio Colin, em suas próprias palavras!
Ele é simplesmente o maior mestre da nona arte no Brasil, ainda na ativa. Possui um traço único, diferente, estilizado. Já desenhou de tudo um pouco, passando por tiras, HQ’s de terror, eróticas e até álbuns com obras históricas. Em fevereiro de 2001, ganhou o troféu Angelo Agostini de melhor desenhista de 2000, comFawcett.
Aos 70 anos, é um defensor exacerbado dos quadrinhos nacionais. Não gosta do Batman, nem do Super-Homem. Acha que são coisas dosgringos.
Nas suas HQ’s podemos encontrar a mula-sem-cabeça, o saci-pêrere,
caboclos, mulatas, samba, macumba, cerveja, enfim, tudo aquilo que tiver
raízes em nossa cultura.
Conheça um pouco mais sobre o mestre Flávio Barbosa Mavignier Colin, ou simplesmente, Flavio Colin, em suas próprias palavras!
Universo HQ: Como foi o seu início de
carreira? Em que ano isso aconteceu? Como era o mercado de quadrinhos
no Brasil naquela época?
Flavio Colin: Eu iniciei nos anos 50, na Rio Gráfica Editora,
no Rio de Janeiro. O quadrinho brasileiro nunca foi essas excelências,
não é? Mas as revistas que eram publicadas, inclusive as daRio Gráfica,
vendiam bem. Tinha Fantasma, Cavaleiro Negro… e depois as nacionais: “O
Anjo” e o “Jerônimo”, que também vendiam bem. Pelo que eu me lembro!
UHQ: Que artistas influenciaram seu estilo?
Colin: Eu admirava muito o
trabalho do Milton Caniff, que desenhava “Terry & Os Piratas”;
Chester Gould, que fazia Dick Tracy; Alex Raymond, de Flash Gordon, um
dos maiores desenhistas americanos, se não for o maior; e Burne Hogarth,
que fez Tarzan.
UHQ: Poderia fazer um pequeno resumo
de sua trajetória no meio? Editoras e títulos para os quais trabalhou,
principais obras etc…Você publicou fora do País?
Colin: Não sei qual foi minha
principal obra… Alguns dizem que realmente foi “O Anjo”, aquela novela
de rádio adaptada para HQ, lançada pela Rio Gráfica, que durou mais e me projetou no mercado de quadrinhos. Mas depois eu também fiz muita coisa para a Editora Outubro,
de São Paulo, do Jayme Cortez e do Miguel Penteado. Eram histórias de
Terror. Além disso, fiz os primeiros números de “O Vigilante
Rodoviário”, que foi o primeiro seriado nacional de televisão.
Depois, houve um período para a publicidade. Durou uns 12 anos, e parei até de fazer quadrinhos. Aí, voltei para a Grafipar, do Paraná, com histórias eróticas; para a editora Vecchi; e fiz o Lobisomem para a editora Bloch. Então, fui pegando trabalhos avulsos, pois não tinha mais uma série completa. Sempre fiz quadrinhos.
Cheguei a publicar na Bélgica, na Itália e até em Portugal, pela Meribérica.
UHQ: Como você comentou, no início de sua carreira fez uma adaptação da série policial de rádio O Anjo e, posteriormente, um seriado de TV (O Vigilante Rodoviário). Como eram as vendas desses títulos? Qual a dificuldade em se fazer esse tipo de adaptação?
Colin: O Vigilante era negociado em São Paulo, pela Editora Outubro e,
até onde eu sei, vendia muito bem. O Anjo também, porque tinha a
cobertura da novela radiofônica, e faziam aqueles cartazes em bancas e
pontos de vendas.
A dificuldade era que “O Anjo”, no
rádio, se passava nos Estados Unidos e, por isso, todos os nomes e
cidades eram americanos. Mas, nos quadrinhos, houve um acordo entre a Rio Gráficae
o Álvaro Aguiar, o autor, para tudo ser transferido para o Brasil.
Então, era a mim que competia receber os capítulos da novela, e colocar
aquilo tudo em HQ, com nomes brasileiros e cidades como São Paulo, Rio
de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre etc.
UHQ: Você foi um dos pioneiros no
Brasil em fazer adaptações históricas para os quadrinhos. Esse tipo de
trabalho exige muita pesquisa visual?
Colin: Eu fiz alguns trabalhos
de episódios históricos. Sempre tive preocupação em fazer algo o mais
bem documentado possível. O brasileiro é tão ignorante sobre as suas
coisas, sua história, que é bom fazermos algo o mais próximo da verdade
possível, para informar direito. Pra não fazer igual a algumas novelas
por aí, que misturam índio americano com o índio brasileiro, e o povo
não fica sabendo como é o índio brasileiro.
Não fiz muito, porque não apareceram mais oportunidades, mas é algo que eu gosto, porque instrui e diverte também.
UHQ: Há desenhistas que simplesmente
ignoram a pesquisa na hora de conceber suas páginas. Qual o seu recado
para esses “artistas”?
Colin: Eu acho que a pesquisa é
fundamental, porque a memória é falha. A pesquisa te leva, não só a
valorizar o trabalho e passar uma informação mais precisa e correta,
como também a aprendermos. É subsídio para nossos futuros trabalhos.
Os quadrinhos são uma arte muito
complexa. As pessoas, às vezes, não se dão conta disso, e acham que é
algo infantilóide. Não! Existem muitos tipos de quadrinhos, assim como
existem muitos tipos de filme e de música. Nem toda história em
quadrinhos é infantil! Agora, eu acho que o desenhista tem que ler e, se
puder, viajar. No meu caso, nunca pude viajar, porque sempre fui um
“durão”, mas comprava livros, sempre! Leio livros sobre tudo.
Isso porque, por exemplo, se pintar
uma história passada na China, e eu não li nada sobre o lugar, claro que
vou fazer uma pesquisa, mas já terei um registro na memória. E assim
por diante.
UHQ: O maior volume do que você
produziu foi, sem dúvida, histórias de terror. Por que optou por
trabalhar especificamente com terror? Você curtia bastante o gênero?
Colin: Ah, eu curtia muito! Há
quem diga que não é terror, é “terrir” (risos). Mas acontece que o
terror era o que tinha na época, e o que vendia bastante, principalmente
em São Paulo. Era um mercado em que o americano e seus copyrights não entravam. Então, era um espaço para o artista brasileiro.
O terror é bom de fazer, muito
gostoso, porque incita sua imaginação. Você pode criar monstros e
situações, inventa em cima de várias coisas. Fiz também muitas histórias
de terror para aEditora D-Arte, do Rodolfo Zalla: Calafrio, Mestre do Terror… que também fechou, para variar!
UHQ: Monstros diversos, vampiros,
lobisomens, zumbis, tarados sexuais, duendes, extraterrestres e muito
mais. A inspiração para a criação visual das centenas de personagens que
você já desenhou veio de onde? Do cinema? Dos livros?
Colin: Sim, de tudo! Essas histórias
de Lobisomem, fantasma, almas de outro mundo, de visões, estão todas no
folclore brasileiro, a gente as escuta desde de criança. Todos já
ouviram falar disso! Isso é muito do brasileiro, do caboclo e do índio.
Quem vive no mato, na selva, tem muito disso, acaba vendo coisas. É um
bicho que passa, a sombra de uma árvore… Então, para justificar o medo
deles, falam que é o Saci Pererê, uma alma de outro mundo etc… É assim
que surgem essas figuras. O americano não tem muito disso. Quer dizer,
eles têm lá os fantasmas dele. Gostam muito de vampiro, mas vampiro é
universal. E depois partiram para a ficção científica.
UHQ: Hoje, você acredita que exista espaço para o terror nos quadrinhos?
Colin: Olha, eu acho que existe SEMPRE!
As gerações se renovam, caramba! Falam que não vão fazer mais histórias
de faroeste. Por quê? Sempre que passa um faroeste no cinema ou na
televisão eu vou ver. Claro que isso não é um exemplo, porque foi assim
que me criei. Atualmente é ficção científica, mas, na minha época. era
faroeste. Todo mundo desenhava isso.
Até hoje se desenha faroeste.
Grandes artistas na Europa desenham esse estilo. Como também desenhariam
terror, por que não? Desde que seja conduzido com competência,
inteligência e coragem. Mas falta editor, poxa. Os caras querem mole,
trazem aquela titica toda prontinha, coloca balãozinho, roda e tchau!
UHQ: É possível perceber, notadamente, na extinta revista Spektro,
da Vecchi, que o material nacional continha sempre uma boa dose de sexo
e sacanagem. Qual a reação dos leitores com relação a isso, na época?
Colin: Eu acho que reagiam
muito bem, porque todos gostam de sacanagem (risos)! Se você olhar a
história do mundo, verá que gregos, romanos, egípcios… todos eram
chegados a uma bandalhazinha.
O que acontece é o seguinte: de uns
tempos pra cá, o erotismo tomou conta. No meu tempo de rapaz, não tinha
revista de mulher nua, nem nos quadrinhos. Dick Tracy, Flash Gordon…
eles não tinham. Nem mesmo no terror daquela época. Mas, com essa onda,
os editores achavam que se não tivesse pelo menos uma seqüência erótica,
não venderiam as revistas. Por isso, era quase obrigatório se desenhar
isso.
UHQ: Como foi trabalhar com o Ota
(nota do UHQ: atual e eterno editor brasileiro da MAD, que, na época,
respondia pelas edições de terror da Vecchi)?
Colin: Foi tudo bem, enquanto
durou. Eu tinha trabalho pra fazer, e não tinha problema. Eu ilustrei
várias histórias foram por ele mesmo, embora usasse pseudônimo. Depois,
fizemos até uma revista chamada “Hotel do Terror”, que, infelizmente,
não foi pra frente, e ficou no primeiro número. Foi uma série que
fizemos na Vecchi, que depois ele tentou fazer em formato de revista.
UHQ: Qual foi o motivo da falência da Editora Vecchi?
Colin: Olha, cada um tem uma
versão. A que eu soube, é que o filho do dono da Vecchi começou a fazer
gastos em investimentos, acima do possível. A estrutura da editora não
agüentou e arrebentou.
UHQ: Você chegou a sofrer algum tipo de censura, em sua carreira? Se sim, fale-nos um pouco dessa época.
Colin: Nunca. Censura nenhuma. Bom, censura houve quando eu desenhei o Sepé para a CETPA(Cooperativa Editora de Trabalho Porto Alegre S.A.), uma cooperativa em Porto Alegre, do tempo do Leonel Brizola. A CETPA fazia
coisas regionais. Por exemplo, eu desenhava o Sepé, um personagem real.
Era um índio missioneiro. No Rio Grande existe até uma cidade e um rio
chamados São Sepé.
Ele era meio canonizado, porque
tinha um sinal na testa, uma meia lua, que era uma falha na pele, que
brilhava quando o Sol batia. Então, viam nele uma figura mística. Como
missioneiro, ele defendeu os padres jesuítas naquela guerra das missões.
Tinha também “O Aba larga”, que era a polícia montada do Rio Grande,
desenhado pelo Getúlio Delphin; e “O Gaúcho“, do Júlio Shimamoto.
Era uma cooperativa que publicava
temas nacionais. Mas, como estava interligada ao Brizola, quando houve a
rebordosa, fechou; e os desenhistas que faziam aquilo ficaram meio
marginalizados.
UHQ: Um artista que podemos colocar
como tendo uma carreira em paralelo com a sua, é Julio Shimamoto. Em
praticamente todas revistas que você trabalhou, também encontramos obras
dele. Qual sua relação com Shima? O que você acha do estilo dele?
Colin: Meu relacionamento com
ele, felizmente, é fraternal. Sou um admirador dele, pela cultura que
ele tem, pela sua simpatia, pela pessoa que é. Não nos vemos com a mesma
freqüência, porque moramos longe um do outro, mas quando pegamos no
telefone é quase uma hora de papo, porque falamos quase de TUDO. Sempre
estou aprendendo alguma coisa com ele, com certeza.
Quanto ao trabalho dele, sou um
admirador. É engraçado, nossos estilos são tão diferentes, mas eu gosto
da maneira que ele desenha. Dinâmico, contrastado. Desenha muito bem,
desenha a arte muito bem. É um grande desenhista, um dos maiores que eu
conheço.
UHQ: Você chegou a fazer uma tira em quadrinhos chamada Vizunga,
que, para nosso orgulho, está sendo republicada no Universo HQ. Qual a
história dessa tira? Foi publicada em quais jornais ou revistas? O que
levou ao cancelamento?
Colin: A história é que eu fui procurado pelo Mauricio (Nota do UHQ: Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica) pra fazer um trabalho para publicar na Folha de São Paulo. Então, criei oVizunga,
porque sempre gostei de natureza, animais etc. Acho que tem muito
desenhista e roteirista focando temas urbanos. Como eu, que, embora
carioca, fui muito menino para o interior de Santa Catarina, e lá era
mato mesmo. Meu pai foi trabalhar em uma madeireira. Acabei tendo um
convívio muito direto com os animais e a natureza. Desgraçadamente,
havia muito caçador. Existe aquela brincadeira de que todo caçador e
pescador é mentiroso, exagerado; e isso me deu a idéia de criar o
Vizunga.
Tem uma parte mais “séria”, mais
“acadêmica”, onde ele recebe os amigos, conversa e começa a contar suas
pescarias e caçadas, eu entrava com o cartum, a caricatura, para poder
exagerar no tamanho do animal.
Pelo que eu sei, só a Folha publicou. Quer dizer, que eu vi. Dizem que saiu em outros lugares, mas isso eu não tenho conhecimento.
O cancelamento aconteceu porque eu
ganhava muito pouco com aquilo, e o Mauricio ainda descontava a parte de
distribuição dele. Aí, eu entrei para a agência de publicidade McCann Erickson e comecei a ganhar dinheiro. Um quadrinho de storyboard pagava o mês do Vizunga.
UHQ: Você teve alguma decepção nessa época?
Colin: Todo quadrinista
brasileiro já nasce decepcionado. Não pude publicar mais em lugar
nenhum. Adorava e adoraria fazer isso. Gastei muito dinheiro em livros,
documentação, mapa, guia etc. Mas, infelizmente, não paga a esquine, e
eu tenho família para sustentar.
UHQ: Podemos notar, no decorrer de
seus trabalhos, uma grande mudança nos traços, chegando ao seu incrível
estilo pessoal, quase caricato, na década de 70. Como foi essa mudança?
Colin: Olha, eu primeiro fui
procurando um traço pessoal, algo que me identificasse. Mas um traço
onde eu me sentisse à vontade, porque não adianta fazer algo que é
pretensamente pessoal, mas você não se sinta confortável. Então, eu
tinha que fazer alguma coisa que me agradasse, estética e
artisticamente. Fui e sou um adepto da simplicidade. Acho que a coisa
tem que ser simples.
UHQ: O Ivo Milazzo também comentou isso conosco. Ele disse que faz várias coisas em um traço o que outros fariam em 3 ou 4.
Colin: Exatamente! É o meu
caso. Eu não rabisco muitas coisas. Uso muito contraste, mas procuro
sintetizar, fazer a coisa simples. Talvez seja por isso que dizem que eu
sou moderno, eu estilizo, às vezes meio caricato. Por exemplo, eu acho
que se você for desenhar um bandidão, ele tem que ter no traço, na
figura, alguma coisa truculenta, que o leitor olhe e diga ‘Esse aí é o
bandido; e não o mocinho’.
Mas a simplicidade é muito difícil,
porque é muito mais fácil colocar do que tirar. Agora, eu digo o
seguinte, a base tem que ter estudo, tem que ser acadêmica. Meu esboço é
quase acadêmico, a estilização é feita depois. Você não pode partir
direto para o cartum, e eu vejo muito disso, principalmente, em
fanzines. Mas o cartunista sabe que tem que ter essa base de anatomia.
Estilizar direto é muito difícil e o desenho não fica completo.
UHQ: Qual é a recompensa em ter uma grande parte da vida dedicada aos quadrinhos, no Brasil?
Colin: Se for falar em termos
de ser conhecido e ter conseguido um certo renome, tudo bem. Agora,
financeiramente, é um desastre. Uma catástrofe. Pior que terremoto em El
Salvador. É vergonhoso, humilhante.
UHQ: Em algum momento de sua
carreira, foi possível viver apenas dos quadrinhos? Quando você
enveredou pra ramo da publicidade? Fale-nos um pouco de suas outras
atividades.
Colin: Eu não vivo apenas de
quadrinhos, eu vivo, em grande parte, dos quadrinhos, mas quero mudar,
porque não dá mais para agüentar. Eu sempre que posso ilustro um livro, e
faço um freelancer para a área de publicidade. Fui mais para essa lado
em 1964 ou 65.
Houve um concurso na McCann Erickson,
do pneu Atlas. O tema era “Deixe o macaco em paz”. Eles queriam um
macaco, o animal, e eu consegui fazer como eles queriam. Fiz toda a
campanha, ganhei dinheiro. Não tinha vaga pra entrar na agência, mas
fiquei conhecido por lá, pelo diretor de arte, o Oscar Gosso, um
argentino.
Aí, aconteceu que um desenhista
chinês resolveu sair, para ir pro Canadá, onde morava sua mãe, e abriu
uma brecha. Eu trabalhava na TV Rio, e nunca tinha visto um
storyboard, nem sabia o que era. Conheci lá, na hora. Mas como eu fazia
quadrinhos; e storyboard tem muito a ver com HQs, não foi muito difícil.
Além disso, faço quadros, de vez em
quando, e já fiz até exposição. Quero me dedicar mais a isso, porque
talvez fazer “quadrão” dê mais lucros do que fazer quadrinhos (risos).
Eu pinto com acrílico, sobre telas. Faço também esculturas de madeira,
que é uma paixão que eu tenho.
UHQ: Quais prêmios você ganhou em sua carreira?
Colin: Já ganhei três HQ Mix,
um em 1990 (Grande Mestre dos Quadrinhos), e outros em 1994 (Desenhista
Nacional) e 1997 (como homenageado). Recebi também dois prêmios Angelo Agostini, sendo que o segundo foi esse ano, pelo meu trabalho em “Fawcett”. Ganhei um troféu do XII Salão Carioca de Humor, como homenageado, e um prêmio da Gibiteca de Curitiba.
Tem ainda outros, do Salão Internacional de Piracicaba; Press 1986, pelo conjunto da obra; e do Museu da Imagem e do Som. Houve também uma homenagem da Laura Alvim.
UHQ: De tantas e tantas histórias que ilustrou, qual sua favorita? Por quê?
Colin: A favorita seria “O
Caraíba”. Chegou a sair na Itália, mas não deu certo por aqui. Ele não
nasceu com uma boa estrela, e resolvi não fazer mais.
UHQ: Qual sua opinião sobre os quadrinhos de super-heróis?
Colin: Olha, quadrinho pra mim
é uma coisa fantástica. Com certeza é um dos maiores veículos de
comunicação. É imagem e texto sucinto, que você diverte e instrui. No
Brasil, um país de semi-analfabetos e analfabetos, o quadrinho tem uma
importância muito grande, mas é pouco usado.
UHQ: Até porque existe muito preconceito, considerado sub-arte…
Colin: Isso, exatamente!
Sub-arte, coisa de criança, de maluco. Já aconteceu de me perguntarem o
que faço da vida, e quando digo que desenho quadrinhos, me olharem como
se eu fosse um retardado, um débil mental. Mas é o que eu faço, e gosto!
Aqui, isso tem uma importância muito grande, porque pode ser usado
didaticamente e de várias outras maneiras.
Mas, tirando isso, se deveria
mostrar o Brasil para o brasileiro. Existia uma série na TV chamada
“Carga Pesada”. Eles eram caminhoneiros que percorriam todo o País. A Rio Gráfica tentou
fazer em quadrinhos, mas cancelaram. Uma pena, porque era uma beleza.
Mostrava todo o País, seus costumes, comidas, paisagens… O brasileiro
não conhece o Brasil e não sabe NADA de Brasil também. Se for atrás de
novela de Rede Globo, então, tá roubado…
Mas isso é ideologia, um sonho, uma
utopia… Mas, de médico, poeta e louco, todo mundo tem um pouco. Como não
sou médico, sou poeta e louco (risos).
Super-herói não dá! Artista
brasileiro consegue publicar, com alguns rapazes de talento desenhando
pros EUA, mas, muitas vezes, fazem anonimamente. No molde americano,
como eles querem. Mas eu acho uma questão de mentalidade. O americano
adora isso. É de sua cultura, porque o americano é o super-herói. Para
eles, são os donos do mundo, os xerifes do planeta. Dominam tudo e são
os mais bonitos, inteligentes e poderosos.
Então, super-herói vem a calhar.
Eles se vêem num Super-Homem, Batman, Homem-Aranha, sei lá… Capitão
América! Olha só o nome: Capitão América! Mas nós não somos nada disso!
Então, é uma forçação de barra. Em compensação, somos mais inteligentes e
temos mais noção de ridículo do que eles (risos).
UHQ: Seu estilo lembra mais os traços
europeus. Que tipo de quadrinhos você curte? Você acompanha algum tipo
de publicação de quadrinhos atualmente?
Colin: Sim, meu estilo é assim porque
eu queria fugir do padrão americano. Muitas pessoas já me falaram que
eu me daria bem na Europa, mas como não fui…
Eu não leio quadrinhos. Raramente leio algo. De vez em quando, uma tirinha do jornal O Globo, com o Hagar. Eu gosto de quadrinhos quando eles têm um conteúdo. Recebi um álbum do André Toral.
Ele é um grande desenhista, com um estilo totalmente diferente do meu. O
álbum é muito bom, muito bem documentado, sobre a Guerra do Paraguai.
Deu um enfoque muito legal. Isso eu gosto de ler!
UHQ: Você soube do projeto do jornalista Marcelo de Andrade de adaptar obras de Machado de Assis para quadrinhos?
Colin: Eu já ouvi falar nisso! Aliás,
me ligaram outro dia perguntando se eu tinha ficado chateado por não
terem me convidado. Eu disse que chateado não, mas lamento não
participar, porque eu sempre gostei de fazer temas brasileiros. É coisa
nossa! Quando se trata de tema nosso, eu gosto de participar, me sinto
gratificado.
UHQ: Quais são seus artistas favoritos nos quadrinhos?
Colin: Eu confesso que dos
estrangeiros conheço poucos, e dos brasileiros também, porque não leio
tanto assim. Mas conheço alguns rapazes, como o Watson Portela;
Klévisson Viana, que está começando, e é muito bom; o velho Shima,
companheiro e mestre; Mozart Couto, que agora parece estar se voltando
mais para mangá, mas houve uma época que o desenho dele era primoroso,
acadêmico. Ah, tem também o Mutarelli.
UHQ: Você chegou a participar de um
movimento em prol da nacionalização dos quadrinhos, na década de 70.
Como foi isso? Por que não deu resultado?
Colin: Não deu resultado, porque não podíamos competir com a Abril e a Globo.
Era uma dificuldade encontrar as revistas. Depois, começou o problema
político no Rio Grande, além das dificuldades de patrocínio e
distribuição.
UHQ: Em seu trabalho mais recente, Fawcett, da Editora Nona Arte,
seu domínio das técnicas de luz e sombras, que sempre foi a sua “marca
registrada”, está soberbo! Você está como o vinho? Quanto mais velho
melhor? Acha que os anos de experiência se traduzem em mais qualidade na
hora de transpor pro papel as idéias de um roteiro?
Colin: Não sei se estou como
vinho, mas vou desenhar até onde o meu sentimento, talento e minha mente
disserem ‘Faz!’. O dia que eu começar a ficar muito repetitivo, sentir
que chegou minha hora, penduro meus pincéis e vou vender pipoca na
esquina. Faço meus desenhos da maneira que eu sinto. Às vezes, agrada!
Olha, não se faz nada sem alma. Ou coloca a alma, ou não faz.
UHQ: O que você acha da nova geração de desenhistas brasileiros? E da “velha guarda”, quem você não pode deixar de citar?
Colin: Da velha guarda, estão
todos meios parados, com exceção do Shimamoto. Ele lançou agora
“Volúpia”, que é uma beleza. Dos outros, eu não tenho visto mais nada…
pararam ou ficaram ricos, em outras atividades mais lucrativas.
UHQ: O que acha do fenômeno da segmentação dos quadrinhos, com tiragens menores e vendas em lugares especializados ou livrarias?
Colin: Olha, eu não sei explicar
muito bem. Isso é um problema editorial. Eu vejo o seguinte: as bancas
começaram a encher, de repente. Isso satura e confunde o leitor. Pouca
opção é ruim; e muita, atrapalha. Ninguém tem verba para comprar tudo, e
as revistas ficaram umas muito parecidas com as outras. Já em formato
de livro, é mais seletivo. Não tem uma tiragem fantástica, mas é regular
e possui um público cativo, assim como o europeu faz com Asterix e
Tintin.
UHQ: Com essa “transformação” que o
mercado nacional está experimentando, quadrinhos nacionais têm aparecido
com boa freqüência. Você vê chances de uma retomada da produção
brasileira de HQs? O que seria necessário para isso acontecer?
Colin: Eu sempre que escrevo e
me correspondo com André Diniz, Sibeck e todos que começaram fazendo
fanzines. Dou a maior força e sempre desejo que, um dia, eles consigam
furar esse bloqueio dos copyrights, publicando coisas deles. Para
a minha satisfação, eles estão fazendo temas nossos. Isso é importante!
Torço de coração que consigam comover os editores a abrir as portas
para os quadrinhos.
Não sei se estarei vivo até lá, mas…
Vivem falando que não existe mercado pra quadrinhos brasileiros.
Existe, poxa! Com todo respeito, mas se fizerem HQS nacionais de boa
qualidade, vai vender! Agora, é Pokémon, mangá… pegam aquelas coisas
tudo prontas, com cobertura da televisão, são distribuídos no mundo
inteiro e entram aqui com preço miserável. Aí não dá pra competir.
UHQ: Um recado para quem pretende trabalhar como desenhista de quadrinhos?
Colin: É difícil (risos).
Procure sempre aprimorar o traço, porque um verdadeiro artista nunca
está pronto. Tem que estar aprendendo sempre, evoluíndo sempre. No dia
que achar que está pronto, começa a morrer.
E que usem os temas nacionais!
Há algum tempo recebi um fanzine de
Fortaleza. Os desenhos deles eram estilo mangá. Com tanto tema
nordestino, e não estou falando necessariamente em cangaceiros. Existem
várias outras figuras, até da cidade. O Brasil tem um litoral imenso, e
não existe história sobre isso. Faz coisas do nosso povo!
O brasileiro é um contador de
“causos”. Pega isso e faz em quandrinhos. Deixa Pokémon pra japonês.
Tinha uma revista chamada “Capitão Rapadura”. Aquilo era um barato, eu
me deliciava! Tudo bem brasileiro. Mas os editores não vêem isso.
E leiam bastante. Há desenhistas que
são bons, mas não têm cultura. Você percebe que falta algo no traço
deles. Isso enriquece o trabalho.
UHQ: Obrigado, Colin. Foi uma honra para o Universo HQ entrevistá-lo!
Colin: Eu é que agradeço! Foi um prazer pra mim, e espero não ter dito muita besteira (risos).
Fonte: universoHQ
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